• Alexander Brasil

o peso do mundo





por que é que deus fez isso comigo, mãe?

deixa de ser boba, menina.

deus foi mau comigo, muito mau. que que eu fiz pra ele além de nascer?

a mãe baixou as agulhas de crochê, o olho direito só lágrima, o esquerdo tremelique:

deixa de ser boba. deus não erra nunca, nunquinha.

eu não pedi pra nascer, mãe, eu só nasci. e aí nasci desse jeito, tudo errado.

errado como, menina?

a criança levou a mão direita da mãe até o coração:

aqui. aqui dentro sou menino, e aqui também, dentro da cabeça, e dentro do corpo todo sei que eu sou mesmo não sabendo como é que se é por dentro mas eu imagino e sinto nos meus ossos nos meus dedos das mãos e dos pés e até nos fios dos cabelos e na ponta do nariz, só que tem uma parte errada em mim, acho que deus colocou errado ou se esqueceu de colocar, não sei, queria que a senhora me ajudasse a entender.

qual parte, querida?

a criança pegou a outra mão da mãe e levou ao ventre:

aqui. acontece que na fábrica de deus, bem na minha vez, ele se distraiu um pouquinho e esqueceu de colocar aquela coisa que todos os meninos têm, menos eu. o que eu tenho é um nada, uma fenda, um vazio, um corte.

deus não erra, minha filha, nós somos feitos à sua imagem e semelhança.

mas mãe, deus errou comigo, eu sei que errou. ele quis me castigar, quis me punir por alguma coisa que fiz na vida passada.

quê?

vida passada, mãe, reencarnação.

sim, filha, eu sei, mas onde é que cê viu isso?

na internet, mãe. na aula de informática pesquisei sobre isso de menino se sentir preso em corpo de menina feito maldição e entre tantas coisas tinha uma que dizia que um homem que foi muito malvado no passado muito pilantra xexelento vagabundo cachorrento e afins nasceria mulher na reencarnação seguinte pra ver se aprendia a ser gente mas depois eu vi uma frase dizendo não se nasce mulher torna-se e não entendi mais nada e queria que a senhora me ajudasse a entender por favor mãezinha eu imploro

ai filha hoje a mãe tá cansada mas amanhã

mãe por favor

pergunta pro teu pai


Verdade seja dita: era tudo culpa da nossa ex-vizinha, a viúva negra, que tinha dois filhos e um marido, mais uma amante que, vejam só, convivia com eles dentro da mesma casa. O marido, corno manso que era, não levantava a voz, não dizia nada, só aceitava. Eu, no lugar dele, tinha tacado fogo no barraco. Acabou que, no final das contas, o marido ficou no quarto de hóspedes, e as mulheres ocupavam a cama de casal, do matrimônio. O filho mais velho saiu cedo de casa, casou, foi pro Nordeste. O filho mais novo era especial (é assim que se diz?), aí acabou ficando, ficando, até que o pai morreu, do nada, de um dia pro outro. Podem dizer que é coisa de novela, sim, mas tenho certeza que foi a viúva negra quem matou o marido. Ninguém fala sobre, todos têm medo. Mas eu falo.

O que é que isso tudo tem a ver? Diacho: o filho especial (acho que é assim mesmo) era o melhor amigo da minha filha. E o melhor, ou pior de tudo, é que era apaixonado por ela. E ela nunca quis nada com ele, não sei se porque ele era daquele jeito, com as mãozinhas tortas, ou se por conta das histórias que ele contava. Tenho certeza que ele contava pra ela todo o dia a dia das mulheres dentro da casa, o caos, a imundície. Devia era ouvir e ver as piores barbaridades, o coitadinho. Então, tá aí: minha filha foi influenciada. Ponto. Não é difícil de entender: num dia, viu a morte do pai do menino, no outro, a viúva negra e a amante, de mãos dadas, duas mulheres, duas senhoras, uma pouca vergonha, e o amiguinho cabisbaixo, andando junto, no meio da rua, pra toda a vizinhança ver. A dita cuja cortou até o cabelo, usava camisa social, cigarro de palha na orelha, sapato. Faltava só implantar a piroca. E não queriam influenciar a menina? E não era pecado? No meio disso tudo, minha filha era só uma criança. Uma menina. Tudo bem, uma menina meio, digamos, hum, masculina?, não sei se é a palavra certa ou se, como diziam na minha época, meio bofinho, sapatão, caminhoneira, mulher-macho, greluda, fanfarrona, bolacheira, cola-velcro, tesoureira, fanchona, aranha de briga, maria sapatão sapatão sapatão, de dia é maria de noite é joão, não, não, não, onde eu estava?

Sim: meu ex-marido. Culpa dele também. Tudo começou porque a menina dizia quero carrinho da Hot Wheels, e ele ia correndo comprar, e naquela época já era caro, e ele comprava mesmo assim, e depois a menina dizia quero um dinossauro, e depois quero um robô, e ele ia, sorriso no rosto. Eu não entendo. Não consigo entender. A infância ainda era boa, as crianças tinham Xuxa, tinham Angélica, a Eliana, e a desgraçada não queria Barbie nem Fofolete, só queria era saber de carrinho, de Beyblade, de soltar pipa, brincar de bola com os rapazes da rua. E eu morria de medo. Era minha única filha, a única, e eu espiava da janela, escondida, ficava vendo ela e os rapazes brincarem na frente de casa. Nunca vi menina perto dela. Acho que tinham medo, sei lá. Mas era uma coisa bonitinha, até. A minha filha. Tinha os olhos muito verdes e os cabelos muito loiros, rebeldes, até os ombros. Eu tentei, eu juro, eu tentei colocar no balé. Ficou duas semanas. Voltava pra casa chorando. Não queria comer, não queria dormir, não queria viver. Era uma criatura muito teimosa, cabeça dura. Coloquei na capoeira: era muito violenta, não seguia as regras, os ensinamentos. Quando fez sete anos, mesa posta do jantar, pediu pra jogar futebol. Pediu não: exigiu. Só que na escola só tinha time de meninos: aí, dia de campeonato, os pais das crianças comentavam, cochichavam, se acotovelavam.

Liguei pra uma prima: ela disse que achava melhor prevenir do que remediar, que não era normal deixar a criança mandar em si mesma, que fizesse o que bem entendesse quando fosse de maior, era dever dos pais educar e transmitir os valores, etc. e tal. Aí liguei pra minha tia: católica roxa, carola, já de idade, mas de coração bom, os conselhos saudosos, e ela lembrou que a minha filha era assim desde que nasceu, o coração selvagem, nada a segurava, nem ninguém, sempre um redemoinho, passava pela casa quebrando tudo: um dia tomaria jeito, você vai ver, é coisa da idade, e isso aí de carrinho, de dinossauro, de robô, de jogar bola, não tem nada a ver, isso de separar brinquedo de menino e de menina é bobagem, brinquedo é brinquedo, boa noite, durma com Deus.

Ah, mas eu não tive filha à toa. FilhA. MeninA. Nascida dia 02 de outubro de 1995: quatro kg, um útero, uma vagina, um ânus, duas mãos, dois braços, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca, um coração. Tudo funcionando, tudo nos conformes. Tinha até laudo médico atestando: sexo feminino: cromossomo XX confirmado. Eu e meu ex-marido, naquele tempo marido, sonhamos: casa própria, um cachorro, carro zero na garagem, o chá de bebê, as roupinhas cor de rosa, as camisetinhas da Minnie, tudo muito bonito. Então, eu achava que iria passar, que era só uma fase. A gente sempre acha que é fase. Tenta acreditar. A gente finge que não sabe, se faz de cega, de sonsa, até que a criaturinha olha bem nos olhos, bem fundo dentro da gente, pede amor, pede carinho, e a gente até que dá, mas sabe que queria que fosse diferente, que as coisas não tivessem corrido daquele jeito, desse jeito que não é o certo, não é o natural, não é o jeito de Deus. Tento relembrar minha infância, ver se somos tão diferentes assim. Ela nasceu de dentro de mim. Parte de mim, parte do que sou hoje, nasceu junto com ela. Respiro fundo. Descobri um negócio chamado mindfulness. Fico repetindo: o que importa é o agora. Nada é como na minha cabeça: as coisas são como são. Expiro.

Sei por ouvir dizer que ela se tornou aquilo tudo. Aquilo tudo que eu temia. E foi além. Três meses que foi morar com o pai, pasmem, só três meses, primeiro ano do colegial, começou a fazer tudo o que queria: cortou o cabelo bem curtinho, bem moleque. Comprou uma Zorba. Camisa xadrez. Calça jeans. Botas de escalar montanha. E o pai? Nada fazia, nada dizia? Achava bonito, só pode. Ex-marido é assim: faz de tudo pra se vingar da gente. Devia era achar graça. Não bastava se vestir de moleque, não: engrossava a voz, cuspia no chão, namorava todas as meninas do colégio. E as meninas, não sentiam falta de nada? Deviam sentir. Eu é que sei? Coragem. Os boatos corriam: diziam que ela usava um par de meias no meio das pernas, e por isso é que andava daquele jeito, as pernas espaçadas, carregando o peso do mundo. A Cleide, dona da mercearia da esquina, vejam só, parou até de me cumprimentar. Fazia cara feia quando me via, empinava o nariz. Diacho.

Dia desses, a Elizete, filha da minha melhor amiga, a Rita, encontrou ela nessas coisas de rede social. Disse que procurou pelo sobrenome: o nome tinha mudado. Quis me mostrar foto. Eu não quis saber. Nadica de nada. A Elizete dizia veja, com todo o respeito, ela tá ficando muito bonita, quer dizer, é ela ou ele? E eu não sabia o que dizer, não sabia. É ela. Sempre vai ser. A Elizete passava horas vendo as fotos da transformação. Será que ela também pendia pra outros lados? Estava apaixonada? Apaixonada pela minha filha? Senti certo orgulho. Era orgulho? Repentino. Devia ser um homem bonito, sim. Mas não era homem. Não tinha o principal. Ave-maria. Estaria na faculdade? Trabalhava? Tinha futuro? E se descobrissem que não era homem de verdade? Tanta gente má nesse mundo, meu Deus. Até que teve um dia que não aguentei. Pedi pra Elizete me mostrar uma foto, só uma. Coisa rápida, cinco segundos. Quase desmaiei: e não é que ficou a cara do pai? Cuspido e escarrado. Até o tipo de bigode. Os olhos os mesmos. Os cabelos loiros agora com corte estilo militar. É: eu precisava falar com a minha filha. Com o meu filho. Precisava saber se ela, se ele, estava bem. Daí a Elizete conseguiu o telefone dela. Dele. Aprendi a usar o tal do Zap. Fiz a coisa à moda antiga, feito carta. A Elizete chamou de textão, disse que a mensagem chegou, que ela, que ele visualizou, que tinha dois tracinhos azuis do lado. Não respondeu ainda. Azar. Problema dela. Dele.


Corria, pés descalços, jogando a camisa pro alto, pro vento levar. O passado enterrado sob a sola, o ar indo e vindo, batendo no peito, arrepiando os pelos, os mamilos recém costurados, horas e horas numa mesa cirúrgica. Primeira vez sem camisa: dia sonhado, moedas guardadas num porquinho: o gosto agridoce de ser a imagem da cabeça de criança, o homem do espelho, vindo do futuro. No alto, gaivotas assistindo ao milagre: renascer. Devagar, entrou na água: ficou: pele enrugada feito banho demorado. Permaneceu até o anoitecer quando, em silêncio, voltou a pisar em terra firme. Levou as mãos ao peito: fechou os olhos: abriu: fechou: abriu: tudo continuava ali. O peito lisinho: a pele colada ao músculo. Levou as mãos cruzadas aos ombros, num abraço. Dançou seu baile fúnebre, valsa pro seu outro corpo, até cair e adormecer sob a maresia.